reflexões sobre o design para a sustentabilidade
Polêmica sobre refrigerador natural
13.02.09
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Sustentabilidade. O que caracteriza um processo sustentável? Não venho por meio deste artigo dissecar o processo físico para tornar algo sustentável. Este texto se propõe a analisar qualidades humanas. Afinal, se perseguimos maneiras mais verdes de vida, é porque estamos em busca de nos revermos, de considerar que precisamos sim mudar algumas das dinâmicas atuais. Não se trata apenas de migrar do petróleo para os óleos vegetais, do plástico mineral para o plástico vegetal, ou simplesmente abolir roupas caras e produtos provenientes de culturas que poluem. Novas dinâmicas, antes de tudo, são compostas de novos comportamentos.  E se vamos alcançar os objetivos anteriormente citados, é porque, gradativamente, mudaremos nossa maneira de pensar.

 

 

Mohammed Bah Abba e Emily Cummins são dois nomes extremamente diferentes. Duas realidades distintas. Mohammed Bah Abba é um professor politécnico nigeriano enquanto Emily Cummins é uma jovem inglesa de 21 anos. Mas ambos detêm um ponto em comum: a intenção de melhorar o que parece estagnado, de pensar em soluções para problemas. Esta vontade levou ambos a pensarem em um refrigerador que não precisa de eletricidade, capaz de melhorar a qualidade de vida de milhões de pessoas na África. 

O primeiro a ter a idéia foi Bah Abba, que inventou este refrigerador que consistia em dois potes de cerâmica, um dentro do outro. No espaço entre eles era colocada areia bastante umedecida. O funcionamento é o seguinte: à medida que a água evapora, a temperatura do interior do aparato baixa, criando um refrigerador natural.

Desta maneira, berinjelas podem ser conservadas por 27 dias ao invés de 3. Tomates e pimentas podem alcançar 3 semanas ou mais. O espinafre africano, que normalmente estraga em um dia, permanece comestível por até doze.  O resultado: os fazendeiros locais podem vender sob demanda, sem necessidade de desesperadamente lutar contra o apodrecimento dos alimentos.  Os primeiros 5.000 potes foram financiados por Abba. Mas o reconhecimento chegou, e Mohammed Bah Abba recebeu, em 2000, o Prêmio Rolex, num valor de $ 75.000. Ele usou estes fundos para distribuir um total de 91.795 refrigeradores naturais, que em inglês são chamados de pot-in-pot, uma alusão ao seu mecanismo, que utiliza um pote dentro de outro. Cada pot-in-pot custa apenas o equivalente a 40 centavos de dólar.

Mas e Emmily Cummins? A jovem inglesa esteve na África durante 2005/2006 divulgando e testando um aparato que utiliza o mesmo princípio do pot-in-pot de Abba. Mais diferenças além do nome e local de moradia.  A principal distinção entre os dois refrigeradores é o material utilizado. O refrigerador de Emily é feito de metal, o que dificulta sua produção e encarece preços para os Africanos.

O pot-in-pot de Abba é mais adequado e acessível às culturas africanas, pois a composição de materiais do produto e a forma de construção são bem mais simples. Mohammed Bah Abba concebeu, bem antes de Emily, um produto muito mais eficiente dentro do ambiente alvo da invenção. Aí começa a polêmica. Um jornal inglês, o Daily Mail,  disse que Emily “inventou” o aparato, o que é uma afirmação equivocada. A afirmação de que o refrigerador metálico de Emily era uma inovação nunca antes vista causou polêmica em blogs sobre sustentabilidade.  No Inhabitat e Treehugger, comentários desaprovavam a invenção e até mesmo ironizavam Emily Cummins.  Outros comentários defendiam a intenção e disposição de Emily.

Chegamos ao ponto.

Não estávamos falando de intenções no primeiro parágrafo?  De modificação gradativa na maneira de pensar? Por quê? A busca pela sustentabilidade é feita de erros e acertos, e, acima de tudo, perseguições. A iniciativa de Emily é maravilhosa, assim como a de Abba. Design, em um dos seus aspectos essenciais, pode ser definido como a tentativa de solucionar um problema.  Críticas a buscas por soluções soam levianas. Pois, ao que tudo indica, as intenções de Emily são genuínas e reais. Tanto quanto as de Mohammed Bah Abba.  Mudar nossa maneira de pensar significa dar méritos, escapar o máximo possível de uma visão auto centrada ou etnocêntrica. Ouvir opiniões e respeitar àqueles que exercem um esforço de mudança.  Tal processo não impede críticas, só as torna mais precisas e bem formuladas.
Que Emily Cummins e Mohammed Bah Abba continuem com suas buscas. 
 

 

2 comentários

Acho que um ponto importante é mudar padrões de pensamentos, hábitos, enfim...o que não parece mudar é o anseio pelo autoral. Penso que as criações começarão a se caracterizar através de um processo mais coletivo, conscientemente ou não. Nesse caso, quem estaria mais preocupado no veredito de quem inventou o quê antes, ela ou ele? Espero que nenhum nem outro.
Paula Carmona
21.02.09 - 11:06
Concordo com a Paula. O que me parece é que há certo receio de que a moda e a luta desesperada por um lugar ao sol, presente em nossa sociedade, gera um receio e uma certa desconfiança para as criações, principalmente do segmento eco. Não só por ser algo novo mas principalmente pela a "audácia" que esses projetos trazem consigo ao propor uma novo modelo de desenvolvimento. Tudo que é diferente, traz insegurança, medo e receio. Ainda mais quando busca refletir tudo o que acreditamos ou acreditávamos que era certo e melhor, o famoso desenvolvimento. De qq forma estratégia sempre existe! Mas nem tudo é isso... Prefiro pessoas desenvolvendo projetos ecologicamente corretos por moda do q poluindo por moda! Afinal esse tipo de iniciativa cria oportunidades para projetos verdadeiros e a ploriferação deles tende a gerar uma nova consciência que tende a se refletir não só na produção mas no consumo também!
Carla Romano Amaral
01.04.09 - 22:52
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