
Me lembro da primeira vez que observei aquele brilho. Cegava. Abri meus olhos com esforço para contemplar o que havíamos criado. Mas o brilho cegava.
Lembro como se fosse ontem.
A temperatura da Terra subira 1 grau nos últimos 15 anos e estávamos chegando a um nível insuportável. O vilão apontado: queima de petróleo? Emissão de carbono? Plástico? Nossa Era Petroquímica, nossa era descartável que nadava em litros de ouro negro alcançava o ápice da impopularidade. Cuspíamos no prato que havíamos comido por tantos anos. Mas não deixávamos nossos carros individuais, não abríamos mão de nossas sacolinhas plásticas. Tudo tão mesquinho.
O custo de início de uma solução: 555 billhões de dólares.
Lembro como se fosse ontem.
Os conservadores diziam: “Impossível!”
Os idealistas: “Chegaremos lá!”
E aqueles cujo pé nascera fincado ao chão: “Teremos trabalho… muito trabalho.”
E tivemos.
Em meio às grandes mudanças sociais desencadeadas pelas revoltas, tivemos muito trabalho.
Não bastava construir o maior Jardim Solar já visto no mundo. Tínhamos de resolver questões morais e éticas envoltas no fato de que o Saara, palco perfeito para a implantação do Jardim, localiza-se na África. E todos sabemos que, de uma forma generalizada, e infelizmente, moral e ética não são os principais atributos da grande maioria dos homens de negócios. E 555 bilhões de dólares é uma quantia que só poderia ser aportada por representantes desta espécie. E este dilema ocorreu em meio à Revolta Verde. E como o mais torto dos caminhos na maioria das vezes é o mais revelador...
A construção do Jardim Solar exigiu de seus idealizadores e empreendedores uma escolha: Todos aqueles que participassem da construção e da atividade lucrativa proveniente do Jardim Solar, deveriam firmar um compromisso de limpeza dos processos produtivos das empresas envolvidas na empreitada. Um divisor de águas. A curto prazo, “Limpar processos produtivos”significa menos lucro.
Neste ponto os idealistas têm razão. Definitivamente precisamos deles. Chegaremos lá. Com a exigência destas condições, metade das empresas retraíram suas propostas. O projeto teria um atraso de anos. Não sei precisar quantos. Sei dizer que foi uma espera longa, que sobreviveu devido à perseverança daqueles que se envolveram de coração com o projeto. E, para minha alegria, boa parte dos envolvidos eram da espécime “homo business sapiens”. Homens de negócios. Sinais de mudança.
Mas porque África? E que diabos é o Jardim Solar?

O Jardim Solar é uma construção que parte do seguinte princípio: se 0,3% do Saara fosse utilizado para captação de energia solar, seria o suficiente para alimentar a Europa com toda a energia necessária para seu funcionamento. Incrível não? Um incrível visão que custa bem mais do que 555 bilhões de dólares para ser vista na prática. Esta quantia supri apenas 15% de energia renovável para todo o continente europeu. Mas é um avanço. Europa? Mas o Jardim não fica na África?
Eis a tal discussão ético-moral que assombra o “homo business sapiens”. O conglomerado investidor que realizaria este feito era uma junção de empresas européias. Na época do início do projeto, em 2009, a África sofria com centenas de anos de exploração indiscriminada por parte de...hã.... quem? Dos europeus. E o Saara, antes associado à escassez de água e às monumentais pirâmides, agora seria placo de um empreendimento faraônico, que resolveria o problema energético da Europa. Para uma cotrapartida à África, seriam instalados desalinizadores solares (figura abaixo).

Inventados por Charles Patons, a tecnologia retira o sal da água do mar condensada para gerar água fresca. Este invento aplicado ao contexto das populações africanas pode gerar um aumento considerável das possibilidades agrícolas. Resolveria o problema africano? Não, mas marca o início de uma via de mão dupla. Satisfatório? Não.. mas um começo.
A discussão perduraria por anos.
Os resultados, poderemos observar a partir de agora.
Me lembro da primeira vez que estive no Jardim Solar. Fiz questão de retirar os óculos de proteção. Cegava. Aquele brilho... cegava.
Hoje, corto a fita que inaugura o Jardim Solar.
Amanhã, partirei para um novo projeto: as Ilhas Solares.
Os conservadores que me perdoem: mas nada é impossível.
RSS Feed