reflexões sobre o design para a sustentabilidade

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Êxodo Urbano
31.08.09
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Um senhor de barbas longas e fala perspicaz é o meu entrevistado.  Foram 2 meses tentando contatá-lo até que conseguíssemos ouvir: sim… eu falo.



E é este senhor que vem chegando com um caminhar lento e agradável. Ele ajeita suas calças, prenunciando que iria sentar-se. Um trejeito comum, típico de quando estamos em ambientes públicos. Um gesto que denúncia que sabemos que ao sentarmo-nos em uma cadeira em um hall qualquer, nossas calças acomodar-se-ão de tal modo que parte de nossa região sacra fica exposta. E entende-se por parte de nossa região sacra: cofrinho”.

E de fato o senhor caminha em direção a uma cadeira. Mas uma que não situa-se em um hall, mas ao ar livre. Ele senta. E apesar de ter ajeitado as calças, seu cofrinho fica à mostra. A árvore é uma cadeira. A cadeira... uma árvore.


 

Nos cumprimentamos e ele me fala um pouco do lugar. Noto figuras humanas que lembram pictogramas. Os netos do senhor escalam as figuras ao longe.



Iniciamos a entrevista. Já percebo que não serei entrevistador. Serei ouvinte.

Pergunta 1:
Como foi que o senhor teve a idéia de fundar esta comunidade , a Admirável Mundo Novo?
(Uma música à moda country vem de longe…)

Ahh essa música. Provavelmente algum saudosista que vive na região. Música de estrangeiro, de uma época onde a vida rural era tida como atrasada,  como reflexo de quem ficou para trás. Êxodo rural. Deixe me falar um pouco mais sobre este período.

Havia os cantores e músicos caipiras, os sertanejos, o greepeace e o aquecimento global. O protocolo de Kyoto era o estandarte da teimosia e de países auto intitulados desenvolvidos…  Calotas polares derretiam, ex-hippies convertiam-se em eco-ativistas ou eco-guerrilheiros. Algumas vezes eco-chatos. Neo hippies fundavam empresas “verdes”. Nada contra.

Mas como dizia um amigo meu: a sustentabilidade só chegou ao departamento de marketing.
Do quê mesmo? Das empresas. Neo hippies. As baleias sumiram do mapa. Assim como diversas borboletas e pequenos répteis. A temperatura subiu 1,5 graus Celsius. As colheitas faltaram. Os conflitos aumentaram. Resultado: o movimento mundial,  com ênfase política e legislativa, conhecido  como Revolta Verde.


Bom... ahhh....
(acende o incenso lentamente)
Como eu ia dizendo...
Daí resolvi que poderíamos nos integrar. Bastava que fôssemos, gradativamente, cedendo aos chamados naturais e pensando soluções com o que tínhamos a mão.
Enfim... viemos morar no meio do mato e nos propusemos um problema - no sentido de busca por uma solução – e achamos. Viver de forma sustentável e tentar transmutar nossos hábitos atuais em alternativas. E foi isso que achamos. Achamos um problema a ser resolvido.
(ele olha em volta apreciando a vegetação)


O senhor de fato é um homem prolixo. Que desfere palavras sem necessariamente conferir a elas um encadeamento que possibilite um significado maior. O senhor barbudo e calmo apenas descreve sequencialmente quais foram suas motivações. Ele não se preocupa se o taxarão ou não. Para ele, opinião pública é algo controlado pela mídia. E o significado e abrangência da palavra mídia mudou muito nos últimos anos. Mídias de comunicação em massa, mídias alternativas, mídia do-iti-yourself, mídias de comunicação comunitária... a internet revolucionou minha profissão. O senhor de barba sabe disso. E ele é alimentado apenas das notícias que lhe interessam. Seu genro produz um jornal online da comunidade. Na publicação você irá encontrar notícias sobre iniciativas verdes  e desenvolvimento de novos materiais, biomateriais.

Pergunta 2:

De onde surgiu a idéia de moldar árvores?

Após a Revolta Verde o cerco às indústrias poluidoras aumentou bastante. Na época eu trabalhava como designer em um escritório no centro da cidade. Ficava tratando no photoshop bundas, pernas e manchas roxas de mulheres cobiçadas que topavam posar para ensaios fotográficos. Chato. Entediante. Entende?

Quando estourou a Revolta, percebi que podíamos sim neutralizar e combater pacificamente qualquer tipo de empresa ou governo que desrespeitasse as medidas elaboradas pelo conselho sei lá o quê... Nunca lembro o nome daquele troço...

sei que os empresários chamam o pessoal de Policia Verde... (ri com sarcasmo)

Meu veículo foi a internet. Espalhávamos e mapeávamos quais eram as empresas que utilizavam adubo químico, pesticida, que utilizavam mão de obra servil na confecção de seus produtos ou que não usavam madeiras certificadas. Coisas do tipo. Achávamos que não adiantaria de nada... Até que um dia conseguimos processar um dos maiores empresários do ramo, que vivia um falso modelo de “empresário sustentável”. Foi um quiprocó! Protestos no fórum e tudo mais. Notamos que aos poucos as pessoas começaram a deixar de comprar daquelas empresas e passaram a comprar de empresas verdes. Ótimo eu pensei! Mas eu tinha ficado com essa incumbência de fiscalizar quem desrespeitava ou não as normas para uma sociedade mais sustentável. Não queria esse papel. E larguei o sistema que havia criado na mão de jovens, preenchidos pelo furor típico da juventude e que seriam extremamente eficientes e perseverantes nesta questão. Eu queria era vir para o mato.

(Novamente para e contempla as árvores e flores ao redor)

Foi isso. Ocorreu o segundo movimento na Revolta Verde... o Êxodo Urbano. Um bando de gente que queria voltar a viver de forma simples. Eu fui um deles. Vim para cá e decidi tornar essa antiga propriedade de meu avô em uma espécie de vila aberta. Não sou mais dono desta propriedade. Ela é uma cidade agora. Uma cidade modelo para aqueles que achavam que não era possível hibridizar natureza e avanço tecnológico. E passei a me dedicar a técnicas de botânica e jardinagem. Tudo aprendido na internet. E foi um passo para chegar nessa técnica de molde de árvores. Hoje quase tudo por aqui é feito desta forma.

E é por isso que ganhamos vários apelidos carinhosos: gnomos, elfos, povo da floresta.... 

(o senhor barbado ri como uma criança)


A esta altura havia me resignado ao papel de ouvinte definitivamente. Era como uma criança encantada com casas na árvore que me eram mostradas ao visitar um sitio perdido nos confins da minha infância. Era uma utopia. Falsa ou não, não me interessava. Atentei apenas aos sorrisos e à imagem lírica e prevalente de crianças soltas e adultos livres.

Pergunta 3:

E esses prédios-árvore? Como são feitos?

Ahhhh! Estes são a nossa resposta àqueles que diziam que não poderíamos construir uma cidade nos moldes convencionais. Este prédio é o protótipo do futuro.  Criamos a armação com metal. Depois de consolidada a estrutura, retiramos o metal e entramos com o acabamento. Utilizamos apenas materiais certificados e renováveis. O resultado é um prédio como outro qualquer, mas que gera oxigênio e é verde né???? Estamos desenvolvendo pinturas naturais para as fachadas agora. Não posso deixar de dizer que este projeto é fruto de uma equipe multidisciplinar que inclui engenheiros, agrônomos, bio cientistas e designers.




Mas não utilizamos apenas materiais naturais. Nós também temos nossas casas móveis. Tendas que criamos inicialmente para dar suporte aos conservacionistas que queriam impedir que árvores fossem abatidas. Mas hoje esta situação esta controlada e as TendasÁrvore servem de moradia suspensa e integrada ao ambiente. E estes projetos vão longe... temos diversas aplicabilidades para estas tecnologias. Basta olhar ao redor.






Pergunta 4:
E o senhor? Qual sua função aqui?


Eu? Eu catequizo jornalistas. (ri sarcasticamente)

Brincadeiras à parte, eu atualmente faço parte do time de criação. E não tem nada de ócio por aqui não. Só para as crianças. Somos uma fábrica de pensar problemas. É a minha herança designer que fala alto. Identificar e solucionar problemas. Atualmente estamos aprimorando o sistema de captação de energia eólica e solar. No fundo no fundo isso aqui é um retiro para cientistas.

Bom... e o que você tem a dizer para todos que vão ler esta entrevista?

Não sou pregador. Apesar do meu aspecto “ser da floresta”apenas sigo minhas convicções. Posso dizer no que acredito Ok? E nem sempre isso servirá para todos.

Bom...

Ehhh... (hesitante)

Tem que imaginar né? Que seria de nós sem a imaginação?


Me despeço do senhor barbudo. Só sai da cidade-árvore 5 horas depois. Mas durante estas 5 horas eu não era um jornalista gravando informações para reportar ao mundo o que havia presenciado. Nestas 5 horas restantes me resumi a observador. Admirador.

A conclusão que chego?

Utopias são necessárias.

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