
Texto de Rodrigo Maia
São oito e quarenta da manhã. O bip incessante do despertador me acorda. Prontamente esmurro o botão da “soneca” para faturar alguns minutos de sono. Como sou prevenido, as luzes LED do meu quarto são programadas para simular a luminosidade típica da manhã. Isso ajudo meu organismo a acumular substâncias necessárias para iniciar meu dia.
Me levanto.
Meus lençóis são feitos de algodão orgânico. O material é incrível. Plantado sem agrotóxicos, este tipo de algodão é produzido por agricultores familiares. Os lençóis são deliciosos. São resultado de uma parceria entre uma famosa marca e estes produtores regionais. Como são belos estes souvenires. Tenho certeza de que a economia da região onde é produzido o algodão orgânico obteve um certo grau de aquecimento.
Saio do meu quarto.
As luzes LED automaticamente se apagam. A economia de energia tornou-se política pública de prioridade maior nos últimos anos. A tecnologia LED é de fato, no momento, a forma mais inteligente de produzir luz sem que haja desperdício elétrico. Realmente incrível.
Os níveis de água da minha casa estão bons. Todo o prédio faz coleta, filtragem e reaproveitamento de cada gota utilizada na estrutura. Falo de água pois entrei no meu banheiro.
Aliás, o espelho do meu banheiro é uma TV. Não só meu espelho, mas toda e qualquer superfície que possa ter inserção de LED se tornam uma TV. Casas brilham, carros brilham. Meu espelho brilha. E além de brilhar, me revela a temperatura da cidade, previsão do tempo, umidade.
Trinta e sete graus Celsius. Dia nublado.
Como já disse, os níveis de água do prédio estão bons, mas não tenho nada o que comer na geladeira ou na despensa. Meu espelho me disse isso também... Sempre que faço compras, ao entrar na casa registro todos os códigos de barras dos produtos. Ao jogar a embalagem no lixo também. Desta forma sei tudo o que tenho na minha despensa ou geladeira. Comerei na rua. O interessante é que estou sem comida pelo único e exclusivo fato de que ainda não me acostumei com as cotas de alimentação local que temos no prédio. Tenho direito a uma cota de alimentos orgânicos para retirar, mas sempre esqueço. Nossa “fazenda urbana” é o nosso terraço. Meus dejetos são o adubo.
Escovo os dentes e tomo uma ducha.
O mais interessante no meu banheiro é o fato de ele estar intimamente ligado à horta do teto do prédio. Repugnante não? Se defeco, os sensores químicos acionam a tubulação da direita, aspirando minhas fezes para serem depositadas em uma enorme compostagem do prédio.
Funcionários especializados utilizam o resultado desta compostagem como adubo para a horta do terraço. Acho que me boicoto. Não retiro as cotas não por esquecer, mas por não gostar da idéia de comer algo que cresceu de meus dejetos. A urina é transformada em fertilizante natural, também em uma central de processamento do prédio. Do pó ao pó. A parte mais asquerosa desta situação é o fato de que merda gera gás. E é este gás, coletado dos dejetos gerados por todos os moradores do prédio, que aquece o banho que estou tomando neste exato momento.
O espelho também me informa as condições do tráfego na cidade. E ele não embaça. No caso, hoje terei certa dor de cabeça durante meu trajeto até o centro da cidade. Um condutor de trajeto, que são sensores que guiam os automóveis nas ruas, pifou. Nossos veículos são conduzidos automaticamente, em velocidade média constante e respeitando distâncias seguras uns dos outros.
Bela ducha esta que tomei. Reavivou-me.
Hora de escolher minha roupa. Afinal, hoje, apesar da contraditoriedade, é um dia especial. Ontem deixei dois dos meus melhores ternos em uma das lavadoras/secadoras do prédio . A tecnologia é uma solucionadora de problemas. Este aparelho não utiliza água para executar suas tarefas. Não sei bem o qual o mecanismo, mas sei que foram coreanos que inventaram o aparato. Meus ternos ficaram impecáveis, e para melhor personificar a contraditoriedade, eles são confeccionados por uma empresa têxtil que foi a primeira a migrar para os processos de produção 70% limpos. É o que determinam as normas internacionais para preservação do meio ambiente. Aliás, a Organização Internacional para Preservação do Meio Ambiente é, provavelmente, a instituição mais importante da atualidade.
Enfim...
Escolhi o terno cinza. A gravata é de tom verde-água cor do mar. Os sapatos são feitos de fibra de cânhamo, muito resistentes e confortáveis. Creio que estou alinhado, como pede a ocasião.
Saio do meu prédio. É um condomínio de luxo, totalmente fundamentado e operando segundo conceitos de sustentabilidade. Para o funcionamento de toda e qualquer estrutura interna , o prédio dispõe de placas solares com captação de alta performance. Geramos nossa própria energia e cedemos o excedente para estruturas no bairro que tiverem necessidade. Abatemos o equivalente ao que cedemos do imposto de renda. Todos os condôminos têm esse direito.
Chega por hoje. Vou tirar um cochilo durante o trajeto até o centro. Como meu espelho-TV me disse... a cidade está um caos. Além dos engarrafamentos, alguns protestos ocorrem na região metropolitana. Há vinte anos, quando aconteceu o que hoje conhecemos como Revolta Verde, várias empresas foram intimadas a “limpar” seus processos de produção. Foi criada a tal Organização Internacional para Preservação do Meio Ambiente (OIPMA), que passou a ser órgão regulatório e fiscalizador com jurisdição mundial no que diz respeito às questões ecológicas.
Nós, os industriais, chamamos a OIPMA de “Polícia Verde”.
Meu nome é _________________, e estou indo ao centro para a primeira sessão do meu julgamento. Sou dono da ____________________________ e fui processado por desrespeito às normas ambientais. Despeço-me, pois vou dormir. Acabei de entrar em um táxi autômato, e vou encarar um engarrafamento pela frente. Durante a crise global de 2009, várias montadoras de carro fecharam suas portas. O que restou foi um sistema de transporte público eficiente e cotas de direito de uso de táxis autômatos privados. As pessoas não têm mais o direito de possuir carros. O principal meio de transporte é a bicicleta.
Minha empresa está sendo processada pois produzia alimentos. Mas utilizávamos um fertilizante químico não autorizado a fim de melhorar nossa safra em algumas plantações.
As pessoas estão excessivamente conscientes. Os protestos são relacionados aos processos utilizados por minha empresa. Querem me comer vivo. E é por isso, que muito inteligentemente, meu advogado me recomendou, há dez anos, a adotar um modo de vida sustentável. E é essa a base de minha defesa. Eu não sabia.
Sem mais demora despeço-me definitivamente. Vou tirar um cochilo, afinal, sonhos são menos inquisitórios que a consciência. São menos inquisitórios que os sentidos.
RSS Feed